Bolsonaro: A Voz do Ressentimento

a maneira pela qual o presidente tem se portado diante do surto pandêmico atual revela-o incapaz de demonstrar sentimentos como afeto e compaixão
Leonardo Marioto

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Os textos publicados nesta seção não traduzem a opinião do blog. A publicação tem o propósito de estimular o debate e a reflexão dos problemas brasileiros e mundiais.

*este conteúdo havia sido postado no dia 24/04/2020. Estamos inaugurando hoje, dia 24/12/2020, a seção “Crônicas” e, por isso, republicando o texto na íntegra.

Hoje, 24 de abril de 2020, o presidente do Brasil Jair Bolsonaro comete mais um ato teratológico: a demissão de Sérgio Moro, um de seus principais ministros e pilares do governo. 

Na semana passada, o presidente já havia cometido o absurdo de participar ativamente de uma manifestação contra a democracia.

Em frente ao QG do Exército, em Brasília, discursou livremente para seus apoiadores. 

Nesse dia, àqueles que estavam atentando contra o Estado Democrático de Direito, ou seja, cometendo crime previsto na CF-88, Bolsonaro enfatizou que neles acreditava. 

Bolsonaro: uma questão contra a democracia

Primeiro, é importante destacarmos que, na manifestação, ouviam-se gritos como “Fora, Maia”, “Fecha o STF”, “AI-5”, “Fecha o Congresso”, denotando total desrespeito às regras de uma sociedade democrática. 

   

Ato Institucional nº 5 

Vale dizer que o Ato Institucional número 5 (AI-5) foi utilizado na época da ditadura militar brasileira, cujo objetivo era o de repreender os que eram contrários à ideologia ditatorial, além de cassar parlamentares da oposição. 

AI-5
Página 01 do Ato Institucional Número Cinco (AI-5) – Imagem por Arquivo Nacional do Brasil. Domínio Público

Não bastando apenas a sua presença, no último domingo, o presidente ainda defendeu: 

“Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás. Nós temos um novo Brasil pela frente. Todos, sem exceção, têm que ser patriotas e acreditar e fazer a sua parte para que nós possamos colocar o Brasil no lugar de destaque que ele merece. Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder.” 

Sim! Todos, sem exceção, têm de ser patriotas.

Entretanto, é exatamente por esse motivo que temos de querer, sim, negociar. O negócio nada tem a ver com falcatruas ou corrupção, mas sim, com a defesa e a necessária criação de uma democracia mais sólida e madura. 

Após todos esses acontecimentos, diversas autoridades vieram a público rechaçar o comportamento, no mínimo, irresponsável, do Chefe do Executivo. 

No entanto, mais uma vez, isso não o bastou. 

Família em primeiro lugar

Hoje, sexta-feira, com intenções explícitas de barrar investigações que pairam sobre sua família, o presidente decidiu exonerar o Diretor Geral da PF Maurício Valeixo, contrariando Sérgio Moro, agora Ex-Ministro da Justiça, que já havia sinalizado seu descontentamento caso a decisão fosse concretizada. 

O resultado foi o pedido de demissão, também nesta manhã, de Moro cuja popularidade ultrapassa a do próprio presidente, segundo pesquisa divulgada em dez/2019. 

Diante disso tudo, dos assíduos apoiadores ao próprio Bolsonaro, é possível enxergar a total falta de razoabilidade em todas essas atitudes. 

Definitivamente, não é razoável que haja pessoas defendendo a volta de uma forma de governo cujo legado foi, acima de tudo, o autoritarismo violento, a violação de direitos humanos, além do agravamento de profundos problemas sociais.

O crescimento econômico relatado à época cobrou um alto preço no fim desse período, conforme salienta o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos nesta reportagem “O lado obscuro do ‘milagre econômico’ da ditadura: o boom da desigualdade“. 

Não é razoável que alguém que esteja no comando do país, em meio a uma gravíssima pandemia, ocupe-se na invenção de sucessivas confusões aleatórias, exclusivas da vida política de sua família, em detrimento de vidas de toda uma população da qual ele é um dos principais responsáveis. 

Sérgio Moro também cometeu erros no processo da Operação Lava Jato, como demonstrou o “The Intercept Brasil“. 

No entanto, faz-se aqui necessário apontar algumas diferenças entre esses políticos do nosso Brasil.

   
Sérgio Moro e Bolsonaro
(Brasília – DF, 11/06/2019) Cerimônia de Comemoração do 154º Aniversário da Batalha Naval do Riachuelo e imposição das condecorações da Ordem do Mérito Naval – Imagem por Marcos Corrêa/PR. Licença CC BY 2.0

Por um lado, Jair Bolsonaro…

Primeiro, Jair Bolsonaro parece ser totalmente desprovido de quaisquer limites ou traços de caráter humanamente aceitáveis. O que hoje, no pedido de demissão de Moro, este sugestionou um certo limiar inultrapassável. 

Suas atitudes foram sempre pautadas na busca da divisão, alimentando os conflitos e discursos de ódio presentes em boa parte da população. Aliás, foram nesses discursos que construiu a sua eleição. 

A maneira pela qual o presidente tem se portado diante do surto pandêmico atual revela-o incapaz de demonstrar sentimentos como afeto e compaixão. 

Mostra-se, em muitas situações, tremendamente indiferente às mortes, preocupando-se tão somente como que essas ocorrências poderiam afetar o seu governo ou, ainda, uma possível reeleição. 

De outro, Sérgio Moro…

Sérgio Moro, após ter aceitado o convite para ser ministro, talvez tenha começado a cavar sua própria cova.

Também não se mostra pertinente aceitar um convite desses logo após ter “mandado à cadeia” o principal rival de seu futuro chefe.

Após essa demonstração de caráter, ficou também mais claro uma almejada posição política do ex-juiz, inclusive na condução de seus processos penais.

Contudo, ao pedir demissão por uma suposta tentativa de interferência de Bolsonaro, Moro parece ter sido capaz de traçar um limite moral, ainda que discutível, à sua existência como ministro.

Resta-nos acompanhar o seu futuro fora (ou dentro) da vida política.

Bolsonaro: a voz do ressentimento 

Bolsonaro
Brasília – O ex-deputado Jair Bolsonaro discute com a deputada Maria do Rosário durante comissão geral, no plenário da Câmara dos Deputados – Imagem por Marcelo Camargo/Agência Brasil

Sejamos honestos.  

Ele é um reflexo não só de um antipetismo que se tornou doente e alienado, mas também, um espelho de muitos dos indivíduos que compõem toda a nossa sociedade.  

Bolsonaro é a voz do ressentimento. Do medo. Da ofensa. E a insegurança à distinção. 

Continuamos, por fim, após as últimas eleições, sonhando acordados com nossos amados, e cada vez mais dissimulados, mitos de estimação.

Servidor público. Músico e escritor nas horas vagas. É também responsável pelo maior site de humanas do Brasil! Formado em Administração pela UNICEP, com especialização em Gestão Organizacional e de Pessoas pela UFSCar.

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