O que a Extrema Direita tem a ver com a Crise Financeira de 2008?

a extrema direita, no mundo todo, conseguiu muitos adeptos depois da crise financeira de 2008. Mas, o que ela tem a nos oferecer?
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A extrema direita, no mundo todo, conseguiu muitos adeptos depois da crise financeira de 2008.

O motivo disso é difícil de definir num texto breve como esse, mas podemos sintetizar pensando em outro contexto, analisado em uma obra já um tanto famosa.

Paul Hockenos (1995) publicou o livro cujo título em português é “Livres para Odiar Neonazistas: Ameaça e Poder“.

Nessa obra, o autor analisa o aumento de grupos neonazistas na Europa após o fim da Guerra Fria (1946-1989).

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Hockenos observa que na virada dos anos 1980 para o 1990, a Europa experimentou o fim dos chamados estados de bem estar social, na sua parte ocidental.

Nesse sentido, houve a imposição progressiva de uma agenda neoliberal sobre realidades marcadas por seguridade, pleno emprego, amplas classes médias, entre outras coisas.

Já na parte oriental ou leste europeu (Rússia, por exemplo), a estabilidade das economias planificadas do socialismo real deu lugar a um quadro de crises permanentes dentro de um processo de transição econômica.

Quer saber mais sobre o livro “Livres para odiar: neonazistas, ameaça e poder“? Acesse o link abaixo:

Livres para Odiar Neonazistas - Ameaça e Poder
Livres para Odiar Neonazistas: Ameaça e Poder, Paul Hockenos

As repostas da extrema direita

Dessa forma, uma massa de jovens viu que suas condições de vida seriam piores e muito menos estáveis que as de seus pais e avós, o que gerou uma sensação generalizada de mal estar e que, portanto, exigia respostas.

A mais simplória delas, porém a de mais fácil adesão, foi aquela dos discursos de ódio, que transferia as frustrações e ressentimentos de uma massa a agentes como imigrantes e outra minorias.

Além disso, passaram a cultivar um culto tanto a uma nostalgia quanto a um passado imemorial, que é algo que tende ao reacionarismo.

Extrema direita
Membros da “direita alternativa”, segurando bandeiras nazista e confederada, preparam-se Parque da Emancipação nos EUA – Imagem por Anthony Crider. Licença CC BY 2.0

Isso foi observado na década de 1990, mas o surgimento do trumpismo e de outras extremas direitas ao redor do mundo se valem de uma realidade histórica similar.

Trump, o ressentimento pós-crise e a nostalgia por um passado distante

Quando se fala do fenômeno Donald Trump, também se fala de uma espécie de eleitor “americano médio”.

Esse eleitor típico é branco, sobretudo homem e heterossexual. Vive na antiga franja industrial dos Estados Unidos, que perdeu grande parte da sua importância naquele país nas últimas décadas.

Além disso, estes foram afetados pela crise de 2008 de forma substantiva, com empregos precários ou desemprego, diminuição de renda e outros fatores.

Entretanto, isso convive com uma autorrepresentação de grandeza e orgulho patriótico e/ou religioso.

A política anti-imigração de Trump

O discurso anti-imigrantes de Trump projeta essa decadência no presente, vivida por esse arquétipo do americano médio numa corrupção da nação trazida de fora pelos próprios imigrantes.

Ao mesmo tempo, minorias como negros, LGBTs e mulheres são representadas como ruins, na medida em que mazelas do presente são colocadas também como culpa dos avanços de direitos dessas minorias.

De grupos da extrema direita a “incels

Nesse sentido, Trump atraiu para si grupos refratários a agendas racistas (supremacistas brancos, Ku Klux Klan, neonazistas, etc.), a pautas anti-LGBT e antifeministas (grupos masculinistas, incels, etc.), fundamentalistas religiosos, ou mesmo grupos que pregam uma radicalização do capitalismo e eliminação do próprio Estado, como libertários e anarcocapitalistas.

Grosso modo, anarcocapitalistas é uma forma de política capitalista que prega a anarquia, esta compreendida pela eliminação do Estado e pela exaltação da propriedade privada.

Ku Klux Klan
Reunião da Ku Klux Klan em Indiana, Estados Unidos, no ano de 1922 – Imagem por Garaoihana. Licença CC BY-SA 4.0

Juntamente a tudo isso, soma-se ainda a representação nostálgica da América antes da Guerra Civil (1860-1865), esvaziada da violência da escravidão e do patriarcalismo escravista, ajudam a aglutinar um imaginário conservador, que serve de fundo ideológico nesse multifacetado ecossistema de ideologias de extrema direita (Ávila, 2021).

A internet como rede de capilarização

A novidade disso tudo foi a internet, que serviu e serve como ponte para que tais discursos saiam de nichos tradicionais e tomem o debate público.

Foi nas redes sociais que o movimento foi marcado, como algumas matérias sobre o assunto indicam (c.f. Devereaux, 2021).

Logo, surgiu então o fenômeno político que teve seu desdobramento mais visível no Capitólio, no dia 06 de janeiro de 2021.

Democracia e crises: o que a invasão do Capitólio nos ensina?

A primeira questão que surge é que o que ocorreu no último dia 06 foi mais um desdobramento de fatos que já vinham ocorrendo desde 2008.

As pessoas, sentindo-se à parte da política, cujas decisões favorecem a bancos e outros atores do sistema financeiro, procuram de todas as maneiras algum protagonismo.

Quem conseguiu emular essa participação das pessoas comuns na política foi a extrema direita, e estamos vivendo consequências disso na atualidade.

Daí, deriva a constatação de que a democracia representativa que existia até a crise de 2008, se já não acabou, no mínimo, hoje, encontra-se desgastada e precisa de mudanças profundas.

O que a extrema direita tem a oferecer?

A extrema direita oferece uma mudança: rejeitar essa democracia e suas conquistas.

Os diversos setores da política que defendem a democracia, diante disso, precisam pensar em formas de atuação que tragam pessoas para a participação na política por uma via diferente, em favor da democracia.

Por fim, no meio disso tudo fica a pergunta: algo do tipo pode acontecer no Brasil?

É impossível prever o futuro, mas o atual presidente é fruto de uma realidade objetiva similar à que produziu Donald Trump, ainda que o Brasil tenha particularidades que devam ser consideradas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AVILA, Arthur Lima de. “A Causa Perdida”: memória da Guerra Civil nos Estados UnidosCafé História. Publicado em 05 out. de 2020. Acesso em 13 jan. 2021.

DEVEREAUX, Ryan. Invasão do Capitólio foi abertamente planejada, mas ignorada pela políciaThe Intercept Brasil. Publicado em 08 jan. de 2021. Acesso em 03 jan. 2021.

HEDGES, Chris. Assim arma-se a próxima crise financeira. Trad. Antonio Martins. Outras Palavras. Publicado em 15 ago. 2019, atualizado em 24 dez. 2019. Acesso em 13 jan. 2021.

HOCKENOS, Paul. Livres para Odiar Neonazistas: Ameaça e Poder. Trad. Esther Ann Henningsen. São Paulo: Ed. Scritta, 1995.

MARCOS, Fabricio Luiz. Fernandes. Antipolítica e Democracia no Pós-2008:  Um Estudo sobre os Mecanismos de Despolitização da Esfera Pública no Brasil Atual. (Dissertação): Mestrado em Ciência Política. Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – Universidade de Lisboa, 2018.

MENEZES, Roberto Goulart; RAMOS, Leonardo. 10 anos da crise financeira (2008-2018): Leituras e interpretações. Conjuntura Internacional • Belo Horizonte, ISSN 1809-6182, v.15 n.2, p.1 – 2, ago. 2018. doi: 10.5752/P.1809-6182.2018v15.n2.p13.

Historiador de formação e comenta sempre sobre política.
Além disso, aprecia uma boa cerveja, rock e metal. É ainda mestre e doutor em História pela UFMG.

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2 respostas

  1. O texto não se posiciona. Fica até parecendo que a extrema direita que gerou Hitler e uma coisa boa.
    Estético de artigo não ajuda a nossa democracia

    1. Edson Machado, respeito o seu comentário, porém discordo da sua leitura.

      O texto não defende teses nazistas, tampouco que a extrema direita seja solução.

      Pelo contrário, seu crescimento, junto a outros discursos antidemocráticos, surgiram como consequência de problemas que se intensificaram no curso da crise de 2008 e suas consequências políticas.

      Apenas se trata de uma constatação diante de fatos ocorridos anteriormente, buscando tentar uma melhor compreensão do momento que nos encontramos hoje.

      Até a próxima!

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