Racismo Institucional: Um Mercado de Trabalho Preto e Branco

há no racismo institucional elementos muito enraizados que precisarão de algo muito maior do que ações empresariais pontuais
Igor Rocha

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Alguns fatos recentes, como o lamentável assassinato João Alberto Silveira Freitas, com 40 anos de idade, um cidadão de cor negra, que faleceu após ter sido agredido por dois seguranças do hipermercado Carrefour, em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra (1), trouxeram ao debate público uma questão importante: o racismo institucional

Outra matéria, publicada logo depois de outro fato acontecido num supermercado da mesma rede, em agosto de 2020, ilustra bem o debate. 

Nesse caso, o promotor de vendas Moisés Santos, de 53 anos, foi coberto com guarda-sóis e cercado por caixas depois de falecer enquanto trabalhava na loja.

   

Mesmo após a tragédia, o expediente corria de maneira normal. 

Ainda na mesma matéria, havia outros casos em que houve algum racismo institucional por parte do Carrefour (2).

Mas afinal, do que se trata o problema do racismo institucional?

Mercado de trabalho preto e branco
Imagem por Werner Heiber em pixabay.com

Antes de explicar o conceito, falaremos antes de outro que nos ajuda a entendê-lo melhor: o racismo estrutural.

O que é racismo estrutural?

   

Quando falamos de racismo estrutural, estamos dizendo que o racismo não se resume a atos individuais de manifestações racistas, sejam tomados isoladamente ou em conjunto. 

O racismo estrutural engloba realidades bem mais complexas e arraigadas. 

Essas realidades, bastante naturalizadas nas sociedades em que se fazem presentes, são, portanto, difíceis de se combater.

Dessa maneira, entendemos como racismo estrutural a formalização de um conjunto de práticas, sendo elas institucionais, históricas, culturais, religiosas, interpessoais, etc. que se dão no interior das sociedades.

Ele se reproduz de maneira consistente, naturalizando-se e produzindo disparidades entre grupos raciais durante longos períodos.

Racismo estrutural
Imagem por Wilhan José Gomes wjgomes em pixabay.com

Raças supostamente superiores…

Assim, ao longo de processos históricos e políticos, partes privilegiadas da sociedade se diferenciam das partes subalternas, submetidas a variadas formas de opressão e discriminação, tendo a raça entre os elementos que estruturam tais hierarquias sociais.

…e fatos aparentemente naturais

Por se repetir durante períodos históricos longos, de conjunturas, o racismo estrutural faz com que, por exemplo, o fato de haver um número muito maior de negros do que de brancos assassinados por autoridades policiais (3), ou que haja disparidade em termos salariais entre pessoas brancas e negras (4), ou que ambientes como as universidades sejam majoritariamente ocupado por pessoas brancas (5) pareçam, aos olhos da sociedade, fatos naturais, inscritos na própria forma como a nossa sociedade reproduz suas relações.

Dessa forma, o conceito de racismo estrutural indica que muito do racismo se reproduz não somente a partir de preconceitos e vontades individuais, mas de acordo com elementos enraizados na sociedade. Estes que atravessam mentalidades e ações conscientes e inconscientes de instituições e de pessoas.

Como explica Silvio de Almeida (7), o racismo tomado pela sua forma estrutural não atenua os atos e as condutas racistas de pessoas ou grupos, muito menos lhes serve como álibi. 

O que o racismo estrutural nos diz é que esses mesmos atos não estão isolados e formam um todo complexo de relações, tornando a missão de combater racistas e o racismo ainda mais urgente, sobretudo por notarmos o quão profundas são suas raízes sociais.

Racismo institucional: o que é, qual sua origem, como se reproduz?

Racismo institucional
Foto real de executivos de uma empresa na bolsa de valores. Não é possível encontrar nenhuma pessoa negra na imagem – Licença CC BY-SA 3.0

Entender o que é e como funciona o racismo estrutural nos traz a clareza de entender que no interior das empresas e das relações de trabalho, assim como nas outras relações sociais, o racismo se reproduz de formas conscientes e inconscientes, mais e menos explícitas.

   

Em se tratando do racismo institucional, este ocorre, por exemplo, quando se observam os quadros de uma empresa e nela estão diretores e CEOs majoritariamente brancos e funcionários de limpeza terceirizados e precarizados majoritariamente negros.

Um tratamento discriminatório, e não diferenciado

Racismo institucional
Imagem por Ahmed Nishaath em unsplash.com

O mesmo quando se presume, com base na cor de um cliente, se ele adentrou um estabelecimento para comprar ou para cometer um furto.

Ou, ainda, nas proporções de uso de força quando uma pessoa branca e uma pessoa negra cometem algum crime nas dependências de alguma empresa (como num supermercado). 

Vinícius Uberti Pellizzaro, advogado, comentando caso de racismo institucional de uma casa noturna acusada de orientar recepcionistas a barrar pessoas negras, define o termo como:

“O Racismo Institucional, nesta nomenclatura, é por vezes desconhecido e outras confundido com a injúria racial ou com o preconceito racial ‘genérico’, até mesmo por operadores do direito, que no desconhecimento da matéria, se utilizam dos termos como se o mesmo conceito tivessem.

Afastando de certa forma o viés jurídico formal, nesta oportunidade faz-se uma abordagem de maior facilidade de compreensão.

Deste modo, o Racismo Institucional é basicamente o tratamento diferenciado entre raças no interior de organizações, empresas, grupos, associações e instituições congêneres.

Em resumo, e de forma coloquial, considerando a problemática singular entre negros e brancos, é você tratar o negro de uma forma e o branco de outra. É você optar por um em prejuízo do outro, ou mesmo preferir, ou até, de forma indireta, ofertar tratamentos diferenciados, de modo a privilegiar um em detrimento do outro, sem qualquer respaldo legal (8).”

A grande questão aqui é o tratamento caracterizado pelo elemento raça como critério relevante para se diferenciar quem se trata melhor ou pior, quem é desejado ali ou não, quem ascenderá na hierarquia dos quadros daquela empresa, enfrentando barreiras mais ou menos árduas e/ou numerosas.

Pensando nisso, algumas empresas promovem algumas ações em combate ao racismo institucional

Ações positivas de empresas contra o racismo institucional

Racismo Estrutural, Silvio de Almeida
Racismo Estrutural, Silvio de Almeida

Quatro dias após o assassinato de João Alberto no Carrefour em Porto Alegre, 12 empresas gigantes que produzem bens de consumo (e que são, portanto, fornecedoras do mesmo supermercado) elaboraram um documento no qual se comprometem em promover ações de equidade racial. Além disso, a prestação de contas sobre elas. 

São empresas como BRF, Coca-Cola, PepsiCo, Danone, General Mills, Heineken, JBS, Kellogg, L’Oréal, Mars, Mondeléz International e Nestlé que participaram da iniciativa (9).

Mas quais iniciativas poderiam ser essas?

Um projeto bastante noticiado foi o programa de trainee exclusivamente para pessoas negras, promovido pela rede de lojas Magazine Luiza. 

Trata-se de um tipo de iniciativa que visa, no caso, a ocupação de negros em posições de maior destaque dentro da empresa.

Além disso, grupos que compõem as principais redes de supermercados do Brasil também formaram uma comissão na qual pretendem discutir ações e práticas antirracistas nas suas lojas (10).

Conclusão

É importante entender que dentro de uma sociedade hiperconectada como a nossa, e com o assunto do racismo em voga, as empresas são pressionadas nas redes sociais, mobilizações sociais e ações diversas a tomarem esse tipo de medida.

Com efeito, o fato de as ações do Carrefour permanecerem estáveis no dia do assassinato em uma de suas unidades (11), aponta para uma complexidade maior para o racismo estrutural. Este que vemos nas instituições brasileiras e, consequentemente, também nas relações de trabalho e nas empresas.

Racismo institucional é apenas a ponta do iceberg

Existem, portanto, elementos muito enraizados e que precisarão de algo muito mais significativo do que ações organizacionais pontuais para enfrentar o problema. 

   

Você já sofreu ou já presenciou algum tipo de preconceito ou discriminação dentro do contexto apresentado acima?

Conte-nos mais nos comentários abaixo!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Homem negro é espancado e morto em supermercado do grupo Carrefour em Porto Alegre. G1 – Rio Grande do Sul. 20/11/2020. Acesso em 15/12/2020.
  2. Seis vezes em que o Carrefour atuou com descaso e violência. Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 19 de Agosto de 2020 às 17:07. Acesso em 15/12/2020.
  3. Jovens negros têm 2,7 mais chances de serem assassinados que os brancos. Faculdade de Medicina UFMG. 10 de agosto 2020. Acesso em 15/12/2020.
  4. A cada três assassinados dois são negros, aponta estudo do Ipea. Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Acesso em 15/12/2020.
  5. Diferença de salários entre negros e brancos do Brasil é de 73,9%, aponta IBGE. Ana Beatriz Rosa, publicada por HuffPost, 13-11-2019. IHU – Unisinos. 14 novembro de 2019. Acesso em 15/12/2020.
  6. Taxa de jovens negros no ensino superior avança, mas ainda é metade da taxa dos brancos. Ana Carolina Moreno, G1, 06/11/2019. Acesso em 15/12/2020.
  7. ALMEIDA, Silvio de. O que é racismo estrutural? S/l. Produção Editorial LTDA, 2019.
  8. PELIZZARO, Vinicius Uberti. Racismo Institucional – O Ato Silencioso que Distingue as Raças. JusBrasil. 2017. Acesso em 15/12/2020.
  9. Coca-Cola, PepsiCo e 10 empresas se unem em compromisso de equidade racial. Marina Filippe, Revista Exame, 23/11/2020. Acesso em 15//12/2020. 
  10. Supermercados criarão comissão para discutir políticas antirracistas. SBVC – Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo. 24/11/2020. Acesso em 15/12/2020.
  11. Ação do Carrefour fecha em alta de 0,49% após morte de homem negro em loja. Uol Economia. 20/11/2020. Acesso em 15/12/2020.

Historiador de formação e comenta sempre sobre política.
Além disso, aprecia uma boa cerveja, rock e metal. É ainda mestre e doutor em História pela UFMG.

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