Revisionismo Histórico: Uma Busca por Legitimação

rever ou negar questões pretéritas jamais é uma atividade “neutra” em termos de valores políticos

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Os textos publicados nesta seção não traduzem a opinião do De humanas. As publicações têm somente o propósito de estimular o debate e a reflexão de questões brasileiras e mundiais.

Sempre vem à tona o debate sobre o revisionismo histórico quando, por exemplo, membros do governo brasileiro atual buscam relativizar os crimes da ditadura militar – ou mesmo negá-los, desqualificando e esvaziando de legitimidade os consensos historiográficos sobre eles.

Mas, afinal, o que vem a ser o revisionismo histórico? O que ele significa e qual é o sentido de se reelaborar a forma como o passado é contado?

O que você vai encontrar neste artigo:

1.Revisionismo histórico: disputa política no presente
2. Revisionismo histórico: revisão do passado
3. Negacionismo e a história no presente

Revisionismo histórico: disputa política no presente

Antes de buscar a resposta – ou melhor dizendo, as respostas – a tais questões, é necessário pontuar que ter uma narrativa hegemônica ou predominante sobre o passado é, antes de tudo, uma disputa política no presente.

Dizer, por exemplo, que os crimes do holocausto não foram tão terríveis quando se é apresentado em algumas narrativas históricas mais difundidas não se reduz somente a uma disputa pela verdade, no sentido científico do termo, sobre fatos decorridos.

O mesmo ocorre, por exemplo, a respeito de abusos e crimes cometidos por ditaduras. Trata- se, sobretudo, de legitimar no debate público tais ações e projetos políticos que dialogam, em alguma medida, com tais traumas do passado.

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Por sua vez, é importante destacar também aquilo que mostra Jorn Rüsen (2009) de que essas reinterpretações narram o passado constituindo sentidos e identidades no presente.

Isto é, são narrativas constitutivas de coesão social de determinados grupos, compartilhadas por eles. Assim, reinterpretar o passado, como diz Hayden White (2014) é mobilizar suas interpretações num sentido prático, útil em disputar e moldar o presente.

Dessa forma, rever ou negar questões pretéritas jamais é uma atividade “neutra” em termos de valores políticos.

Revisionismo histórico: revisão do passado

Revisionismo histórico
Cartaz de manifestações realizadas semanas antes do golpe militar de 1964 – Imagem por Acervo Público

A história, em si, é um campo do conhecimento afeito a constantes revisões de seus pressupostos, conclusões, teses e outros elementos importantes.

Novas fontes, métodos e problemáticas fazem com que o passado seja constantemente reelaborado e rediscutido. E, mesmo no curso de disputas em torno das interpretações dessas fontes e do passado, a intersubjetividade dos historiadores aliada ao rigor metodológico das pesquisas faz com que a história como ciência evolua, no sentido de não ser estanque.

Sua produção é, assim, tão viva quanto a própria humanidade que a produz.

Revisão natural e revisionismo

Com efeito, a revisão natural e necessária é diferente do revisionismo. É uma problemática que já foi levantada por pensadores como Adorno (1995) e Vidal-Naquet (1988), e tiveram profusão na problemática sobre o holocausto nazista.

Entre as décadas de 1950 e 1990, em diversos momentos, autores diversos e com objetivos variados fizeram publicações que buscaram a realidade das câmaras de gás e as execuções em massa, como a chamada “solução final”. O que se via nesses escritos era, pelo menos, duas formas de tentar recontar o passado sobre os horrores do nazismo.

Crianças sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz
Crianças sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz – Imagem por Alexander Voronzow. Domínio Público

Revisionismo histórico x Negacionismo histórico

Uma dessas publicações, evocava um apelo ao debate crítico e aberto, sem preconceitos ou tabus em tocar nos temas sensíveis, partindo de um reconhecimento, ainda que relativo, dos terríveis crimes do nazismo. Contudo, tentavam apresentar uma narrativa alternativa a esse passado, de maneira a atenuá-lo e relativizá-lo intencionalmente.

Trata-se do chamado revisionismo histórico.

Mas há também a sua versão radicalizada, aquela que segundo Vidal-Naquet significava uma forma de assassinato de memória, ou atacar grupos específicos e minoritários naquilo que possuem de valoroso – sua memória histórica – usando da falsificação das fontes, da historiografia e de um falseamento em maior ou menor grau dos métodos de análise do passado para negar crimes e traumas como o holocausto.

Trata-se, aqui, do negacionismo histórico.

O negacionismo e a história no presente

Como vimos, o negacionismo e o revisionismo remontam tentativas de reinterpretar ou reescrever a história do holocausto, negando ou esvaziando seus crimes e traumas.

É importante frisar que o advento da internet fez com que esse tipo de narrativa histórica saísse de meios de circulação específicos que compartilhavam seus escritos, como de grupos neonazistas, para tornarem-se mais abertos e transnacionais (DE CARVALHO, 2016).

Já, em relação a seus objetos, sabemos da profusão de negacionismos e revisionismos sobre a ditadura militar, na qual esse recontar da história serve a projetos autoritários no presente brasileiro (PEREIRA, 2015).

Entretanto, engana-se quem acredita que negacionismos dirigem-se apenas a passados recentes, como os do século XX, nos exemplos acima analisados. Renato Pinto Venâncio (2018), por exemplo, mostra claramente que essa forma de narrar o passado é adotada pelos “Guias do Politicamente Incorreto“, de Leandro Narloch.

Disputas com quilombolas e indígenas por terras

Loureiro e Della Fonte (2010) analisam que mesmo empresas privadas, em disputas com quilombolas e indígenas por terras, recorrem a esses métodos desonestos de interpretar o passado na sustentação de sentidos históricos para disputas de terras.

Por fim, existe, ainda, uma considerável produção de textos negacionistas ou revisionistas a respeito dos tribunais da Inquisição, nos quais se busca defender seus supostos benefícios à humanidade e reduzir a dimensão de suas violências de maneira a se construir um passado idealizado para grupos católicos ultraconservadores do presente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor W. O que significa elaborar o passado. Educação e emancipação. Trad. Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1995. p. 29-49.

DE CARVALHO, Bruno Leal Pastor. O negacionismo do Holocausto na internet: o caso da “Metapédia – a enciclopédia alternativa”. Faces da História, v. 3, n. 1, p. 5-23, 2016.

FONTE, Sandra Soares Della; LOUREIRO, Robson. Revisionismo Histórico e o Pós-Moderno: Indícios de um Encontro Inusitado. Impulso, v. 20, n. 49, p. 85-95, 2010.

PEREIRA, Mateus Henrique de Faria. Nova direita? Guerras de memória em tempos de Comissão da Verdade (2012-2014). Varia Historia (Belo Horizonte), v. 31, n. 57, p. 863-902, 2015.

ROCHA, Igor Tadeu Camilo. Entender ou defender o Santo Ofício? Negacionismo, apologética e usos da história inquisitorial em Para entender a Inquisição (2009), de Felipe Aquino. História da Historiografia (Ouro Preto), v. 12, n. 29, p. 179-213, 2019.

RÜSEN, Jörn. Como dar sentido ao passado: questões relevantes de meta-história. História da historiografia, v. 2, n. 2, p. 163-209, 2009.

VENÂNCIO, Renato P. O Incorreto no Guia politicamente incorreto da história do Brasil. Resenha do livro: Guia politicamente incorreto da história do Brasil. 2 ed. São Paulo: Leya, 2012. (Primeira edição em 2009), versão e-book. HH Magazine: humanidades em rede. Acesso em 28/05/2020.

VIDAL-NAQUED, Pierre. Os assassinos da memória: um Eichmann de papel e outros ensaios sobre o revisionismo. Campinas: ed. Papirus, 1988.

WHITE, Hayden V. The practical past. Evanston, Illinois: Northwestern University press, 2014.

Historiador de formação e comenta sempre sobre política.
Além disso, aprecia uma boa cerveja, rock e metal. É ainda mestre e doutor em História pela UFMG.

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