Segunda Revolução Industrial: Uma Nova Fase Capitalista

as grandes cidades experimentaram rápidos e substantivos crescimentos populacionais, ao que não acompanhou o crescimento das suas estruturas

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A Segunda revolução industrial marcou para sempre o mundo e nossas formas de relações atuais.

Anteriormente, publicamos um texto relacionado à Primeira revolução industrial. Agora, falaremos sobre os principais pontos e fatores que promoveram a continuação dessas importantes transformações.

O início de tudo

A historiografia entende a Segunda revolução industrial como um conjunto complexo de inovações, contidas num largo recorte histórico que se estende entre meados do século XIX e meados do XX.

Essa Segunda revolução, tem como eventos chave a Guerra da Crimeia (1853-56) e a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), além da unificação da Alemanha e das duas guerras mundiais do século XX.

Mudanças no mundo capitalista

Nesse contexto, houve profundas mudanças na organização do capitalismo internacional e na economia-mundo (BRAUDEL, 1996), além de uma ascensão dos Estados Unidos e da mencionada Alemanha como potências.

   

Posteriormente, a União Soviética ascende também no quadro das potências, entre a sua fundação e a Segunda Grande Guerra.

Segunda revolução industrial: uma nova fase no capitalismo

segunda revolução industrial
Imagem por Ralf Vetterle em pixabay.com

Entendida como uma nova fase do capitalismo, a Segunda revolução industrial foi marcada pelo que chamamos de produção em massa de bens de consumo.

A invenção do telefone eletromagnético e a consequente ampliação das comunicações em longa distância – a criação do telégrafo foi também importante – merecem destaque nesse contexto.

Ao longo do século XX, o avião foi desenvolvido com o uso inicialmente para a guerra, mas depois deslocou-se para o uso comercial, progressivamente.

Navios de aço movidos a vapor aumentaram a circulação de mercadorias, pessoas e bens de consumo a nível mundial, o que também impactou fortemente nas tecnologias bélicas.

Aperfeiçoamento da produção e do transporte

Houve outros impactos importantes, ao longo da Segunda Revolução Industrial, no tocante aos transportes.

O crescimento das estradas de ferro, que vieram no bojo de grandes inovações no incremento da produção do aço, tornaram o produto mais barato. Esse fato aumentou consideravelmente a conexão entre espaços antes muito afastados entre si. 

Foram cruciais ao desenvolvimento neste período inovações como o processo de Bessemer e o processo de produção de aço da Siemens.

Além disso, o forno Siemens-Martin resultou na redução de custos do aço, transporte rápido e menores gastos de produção (CONTREIRAS, 2015:83).

   

É importante ressaltar que é nesse contexto que se experimentam importantes inovações na produção energética.

Energia elétrica e petróleo, combustíveis da Segunda revolução industrial

A energia elétrica produzida em larga escala, principalmente pelas usinas termelétricas, assim como o petróleo merecem destaque no campo de inovação energética.

Destaca-se ainda o desenvolvimento de processos de eletrificação de Nikola Tesla, Thomas A. Edison e George Westinghouse, sobretudo no que toca a ascensão dos Estados Unidos como potência.

segunda Revolução Industrial
Thomas Edison em 1878 – Domínio Público

Para mais, na Segunda revolução industrial observam-se inovações como o início da produção comercial de motores à combustão interna, que foram fundamentais nesse processo a partir das últimas décadas do século XIX.

A Guerra Total e os campos de concentração

No contexto da Segunda revolução industrial, vemos uma importante mudança no paradigma de conflitos armados.

A Guerra Total foi um conceito criado para explicar a I Guerra Mundial e aquilo que ela trouxe de novidade com relação a conflitos de larga escala experimentados anteriormente.

Guerra Total designa um conflito de alcance ilimitado entre as partes beligerantes, que mobilizam todos os seus recursos em função da guerra, não somente militares.

Assim, todas as pessoas, recursos materiais – indústria, agricultura, comércio, recursos naturais, ciência, tecnologia, etc. – são mobilizados num intenso esforço de guerra, que somente terá seu fim com a eliminação total do inimigo (DUARTE, 2005: 38-41).

Somos todos um alvo em potencial

Um efeito dramático disso é a consequente indiferenciação de alvos civis e militares, combatentes ou não combatentes. Se toda a sociedade é mobilizada nos esforços de guerra, todos são alvos em potencial.

O efeito claro disso é a experiência de conflitos que alcançaram escalas de números de mortos jamais vistos antes na história humana.

Campos de concentração, em 1870

Os chamados campos de concentração, que tiveram sua origem nas tentativas de impedir rebeliões de escravizados em Cuba na década de 1870, também foram tributários de inovações da Segunda revolução industrial (SMITH; STUCKI, 2011).

Inicialmente, os campos consistiam numa tecnologia de guerra para cercear espaços e manter submetidos num determinado lugar um número grande de pessoas, visando conter levantes locais.

As inovações como as mencionadas linhas férreas e outras tecnologias de transporte foram também importantes para o desenvolvimento desse processo.

A prática que iniciou em Cuba começou a ser vista em outros cantos do mundo, como na atual Namíbia e no Congo belga, com números enormes de mortos entre os séculos XIX e início do XX.

Também aparece prática similar na Ásia, nas Filipinas sob domínio dos Estados Unidos e na China, sob ataque do Japão a partir dos anos 1930.

Os campos de concentração mais conhecidos são os nazistas, da Segunda Guerra Mundial.

Estes se tornaram um paradigma fundamental na história contemporânea de uma produção industrial de mortes, mobilizando-se recursos e inovações tecnológicas em nome da barbárie.

Auschwitz
“Beco” de Auschwitz, campo de concentração nazista – Imagem por Krzysztof Pluta em pixabay.com

Êxodo rural e pobreza com a Segunda revolução industrial

Os processos mencionados acima, como a expansão nos meios de transporte, itens de consumo produzidos em massa e uma maior circulação de pessoas e mercadorias fez com que a Segunda revolução industrial fosse marcada também por um fenômeno considerável de mudança no perfil populacional.

   

Embora as rupturas de organização sociopolítica experimentadas tenham sido bem menos profundas que as observadas na Primeira revolução industrial.

Com efeito, um maior êxodo rural com relação aos contextos anteriores no mundo industrializado foi o processo mais marcante.

As pessoas saíram em proporção ainda maior do campo em direção às cidades, onde havia os grandes centros industriais.

Condições terríveis e desumanas do sistema fabril

Assim, as grandes cidades experimentaram rápidos e substantivos crescimentos populacionais, ao que não acompanhou o crescimento das suas estruturas.

As péssimas condições de vida nas grandes cidades industrializadas foram objeto de atenção de muitos autores.

Ficou notória, por exemplo, a reflexão teórica que Friedrich Engels fez a partir da descrição das condições terríveis e desumanas às quais os trabalhadores das fábricas inglesas, no final do século XIX, eram submetidos (ENGELS, 1975).

Condições degradantes da vida dos trabalhadores industriais foram importantes tópicas da literatura oitocentista e do início do século XX.

Nesse sentido, podemos destacar autores como Émile Zola (Germinal, 1885), Charles Dickens (Grandes Esperanças, 1861) e Victor Hugo (Os Miseráveis, 1862) – para ficar em exemplos mais conhecidos.

Esses pensadores retrataram uma rotina de vida na Segunda revolução industrial marcada por excessivas horas diárias de trabalho, pouco lazer e reduzidas ou inexistentes expectativas de melhora.

Além disso, revelaram uma condição de muita pobreza e vida precária, opostas à opulência de poucos e um mundo de consumismo proporcionado por essa nova fase do capitalismo internacional.

Problemas de saúde pública com a Segunda revolução industrial

Um elemento importante foi também a proliferação de problemas em larga escala relativos à saúde pública, jamais vistos de maneira tão significativa.

Um estudo de Sidney Chalhoub, “Cidade Febril: Cortiços e epidemias na corte imperial” (2018) explora um aspecto importante de ser ressaltado no período.

segunda Revolução Industrial
Cidade febril: Cortiços e epidemias na corte imperial, Sidney Chalhoub

Em seu livro, Chalhoub destaca a consolidação do debate que relacionava as condições materiais das pessoas e o crescimento de doenças, bem como as preocupações dos governos quanto a políticas de vacinação.

A nível internacional, experimentou-se a pandemia da Gripe Espanhola. Esta que tem esse nome não por ter surgido na Espanha, mas porque aquele país, neutro na I Guerra, foi o primeiro a noticiá-la.

Esse mortífero surto causou milhões de mortes e impactou profundamente nas políticas de saúde pública a partir de então (SILVEIRA, 2005).

Segunda revolução industrial e os movimentos operários

Não é por acaso que na Segunda revolução industrial os movimentos operários e organizações de trabalhadores começam a ter mais destaque, embora seja possível remontar suas origens a períodos anteriores.

Ludismo
Gravura de dois ludistas, movimento operário dos primórdios da Revolução Industrial, destruindo uma máquina de fiar – Imagem por Chris Sunde. Domínio Público

O desenvolvimento e difusão de movimentos inspirados pelas doutrinas do socialismo científico e pelo anarquismo tomaram corpo junto a organizações cada vez mais robustas de trabalhadores, sobretudo urbanos.

Movimentos revolucionários como a Comuna de Paris (1871) ou a Revolução Alemã (1917-19), entre outros, refletiram a consolidação no campo das ideias e das ações políticas.

Nessa perspectiva, os interesses de trabalhadores e de uma burguesia industrial eram considerados cada vez menos conciliáveis.

Além disso, a tomada do poder, tanto dos meios de produção como o do Estado, passaram a ser o horizonte político de diversos grupos. (COGGIOLA, 2010).

Fundação da União Soviética, em 1921

Sem dúvidas, a Revolução Russa de 1917 e a fundação da União Soviética em 1921 foram eventos de maior relevância e consequências políticas nesse sentido.

A Rússia, até então de economia mormente agrária e sistema político com grandes similaridades com as monarquias de Antigo Regime, apresentou depois dela significativo desenvolvimento.

O país russo, a partir dali, modificou profundamente o equilíbrio de forças na Europa e no sistema-mundo das nações (SUNY, 2008).

Não obstante a esses processos, estados e a própria burguesia industrial, assim como outros grupos políticos, buscaram também acolher demandas de trabalhadores por vias que não implicassem mudanças substantivas no sistema.

Efeitos da Segunda revolução industrial na administração

No campo da administração, o crescimento e complexificação de empresas e estados também trouxe demandas distintas dos períodos anteriores, exigindo novas abordagens e sistematizações.

Os manuais a respeito da história da administração como disciplina aponta duas grandes problemáticas surgidas em um período de importantes modificações, principalmente no meio em que as empresas eram geridas.

A primeira foi o grande e acelerado crescimento de algumas organizações, que se dava de maneira um tanto desordenada e, dessa forma, exigia conhecimentos aplicados de maneiras muito diferentes do que havia até então.

Administração como atividade científica

Um outro ponto fundamental foi a formulação de princípios do que se chamou de Administração científicaA teoria visava uma maior eficiência devido a mercados cada vez mais competitivos de diversos produtos que surgiam naquele contexto.

Tal processo foi contemporâneo a desenvolvimentos similares na economia e ciências sociais, que buscavam, naquele período, dialogar com epistemologias mais próximas das ciências naturais.

Nessa lógica, procurava-se uma maior previsibilidade nesses fenômenos, além da construção de modelos mais próximos daquilo que poderia ser universalmente aplicável.

Frederick Winslow Taylor

O livro “Princípios da Administração Científica”, de Frederick W. Taylor, foi publicado em 1911 e é fundamental para se entender tais aspectos.

Princípios da Administração Científica, Frederick Taylor
Princípios da Administração Científica, Frederick Taylor

De maneira geral, a obra definia princípios de organização das empresas a partir de uma analogia com uma máquina.

Entre alguns pontos, valoriza-se a organização e a divisão de tarefas, assim como a necessidade de se seguir projetos pré-definidos (referência).

A doutrina tem seu aspecto mais visível e famoso na trajetória de Henry Ford, na indústria automobilística, e o que veio a ser chamado de “fordismo”.

Posteriormente, a prática de Ford foi vista como exemplo dessa automação e divisão de tarefas como meios de aprofundamento da eficiência nos processos de produção.

Uma crítica a isso se deu na obra de Elton George Mayo, com a Teoria das relações humanas, na qual questionava a comparação homem x máquina.

Mayo passou a associar a própria eficiência da produção com questões emocionais, naturais de quaisquer seres humanos, inclusive dos que trabalhavam em uma unidade produtiva.

Conclusão

Por fim, é possível concluir que a Segunda revolução industrial impactou imensamente não apenas no desenvolvimento histórico administrativo, mas também, toda uma maneira de pensar o mundo, o homem e o seu modo de trabalho.

Todas essas transformações, tanto da primeira quanto da segunda revolução, trouxeram uma ampla gama de infinitas possibilidades.

Por um lado, o desenvolvimento da automação radicalizou as estruturas produtivas e organizacionais de formas muito positivas.

Entretanto, por outro, ainda que novas atividades e funções foram sendo criadas nesse período, ao trabalhador restou também inúmeras dificuldades, especialmente em suas condições cada vez mais cerceadas e limitadas de trabalho. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV –XVIII. Trad.  Telma Costa. Vol. 3. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na corte imperial. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2018.

COGGIOLA, Osvaldo. Da revolução industrial ao movimento operário. As origens do mundo contemporâneo. Porto Alegre: Pradense, 2010.

CONTREIRAS, Pedro Augusto Rodrigues. A quarta revolução industrial: um estudo de caso realizado na empresa Lix de Tecnologia. Revista Gestão, Inovação e Negócios, 2015.

DUARTE, Antônio Paulo. A Visão da “Guerra Total” no Pensamento Militar. Nação & Defesa. Outono-Inverno, 2005.

ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Porto: Afrontamento, 1975.

GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1994.

HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). Trad. Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. 2ª ed.

SILVEIRA, Anny Jackeline Torres. A medicina e a influenza espanhola de 1918. Tempo, 2005.

SMITH, Iain R.; STUCKI, Andreas. The colonial development of concentration camps (1868-1902). Journal of Imperial and Commonwealth History. 2011.

SUNY, Ronald Grigor. Ascensão e queda da União Soviética: o império de nações. Lua Nova. 2008.

Igor Rocha

Igor Rocha

Historiador de formação e comenta sempre sobre política. Além disso, aprecia uma boa cerveja, rock e metal. É ainda mestre e doutor em História pela UFMG.

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